Sunday, August 31, 2008

O Dia de Ontem

O Dia de Ontem
(Elinando F.)

A anti-socialidade do domingo tem explição! É a janela fumê fechada, é um quarto sem ventilação. Se vêem possibilidades, se vêem motivos, mas não se vê a solução. A anti-socialidade do domingo tem explição, e a meu ver, já teve solução, quando agora sem gosto, é um arroto no vácuo da solidão. Eu sinto bem isso, é uma rosa sem cheiro, mas linda e vermelha, é um mar sem ondas pra me levar de volta a terra perdida de ontem. Eu achava que era saudável, mas me torno anêmico, pelo sangue que eu doei pra ninguém. Eu me sinto morto, domingo é um dia morto, é como se eu não fosse mais nada, uma pedra num poço sem fundo, meu olhar desfocado na contra-mão!

Leito do Amanhã

Leito do Amanhã
(Elinando F.)

Eu pedi pra sair, pra me expulsar, eu pedi pra voltar, eu sonhei que era verdade, eu vivi um pedaço do tempo, e os segundos sagrados me diziam coisas para que eu não esquecesse, por mais inevitável que fosse. Eu fui e queria ir longe e cheguei até onde eu não podia pensar, e me lembrei, recordei que era criança e me perdi na selva de pedra, a ponto de não me ver mais, a ponto de ser um edifício de concreto e meu coração, um gerador quase inútil. O vazio da minha expansão me deixou nesse espaço, e minha unidade era parte dessa representação. Eu me movia, mas algo me dizia que eu não deveria me mexer, eu nada via, mas de olhos fechados, eu estava a tudo ver, e durante esse tempo, eu perdi a noção até o momento de eu me acordar como se nada tivesse acontecido. Eu fui hospitalizado e fiquei inconsciente por alguns minutos...

Wednesday, August 20, 2008

Transposição

Transposição
(Elinando F.)

Oh, sonho distante! A vida tem sido assim quando te vejo longe, onde te encontrar de novo? Por vezes eu me movo e pareço outro: Pedaço de carne humana e ossos desalmados... Frieza de timidez cínica, eu vejo meus passos enquanto o caminho se entorta no ébrio pensamento. Como sou distante! Como sou feliz nesse horizonte! Paralelo vertical em cruzamento com a linha imaginária da ordem. Não há ponto na cruz, não há nada que se encontre, eu me encosto para não cair da vertigem, as vezes nem vejo o chão pois sinto que estou ainda voando... Eu penso longe, eu sonho longe e minha próxima parada não será mais aqui.

Monday, August 18, 2008

Sol Artificial

Sol Artificial
(Elinando F.)

Eu tenho a vaga impressão que tudo isso é mentira, muita coisa é mentira e não é só eu que estou dizendo. Se você enxerga o mínimo, é capaz de notar a tamanha ilusão que é a beleza das imagens em sincronia com as cores e formas, tendo no fundo, com a magia de uma canção e o espelho de uma voz, uma ausência de harmonia. Falta então a vida, a alma, falta o ponto final, o horizonte central de um buraco negro...
Eu tenho certeza que isso faz parte de um jogo, pois são poucos, muitos poucos a se admirarem com tanta mentira, acreditarem nessa tamanha quadrilha de ilusionistas. Tendo na estética seu grupo de participantes, a mentira ganha corpo e se espalha na solidão de um universo de estrelas sem brilho, sem luz e sem gravidade.
Quem reina absoluto ao redor desse círculo? Parece ser nós, nós que perdemos a vez? Deixamos de ser nós porque envelhecemos? A idade perdeu seu valor e hoje é mais que mentira, nossa idade é passado, e nosso passado é verdade, tudo se resume ao que era verdadeiro, ao que tinha amor, ao que continha alma, ao que existia, hoje não somos mais nada, nem somos mentira, somos o que passou: Estamos condenados a viver eternamente girando em torno desse Sol opaco?

Das Sensações

Das Sensações
(Elinando F.)

As minhas sensações estão deixando de ser sensações, elas já estáo se dissipando em visões, na euforia do viver platônico, na utopia do ser errante caminhando pelo destino incerto das reações restantes. O amor na lembrança é imagem no espelho d´agua, é a vida no vento que acalma, é a Solidão do momento como beleza intacta, o monumento da morte paralisada. Eu sei que nesse sentir eu vejo a alma das coisas, e as formas são tão reais quanto as formas desse mundo: É díficil de entender, mas acho que mesmo assim, creio que hemos de sentir as mesmas coisas...

Monday, August 11, 2008

Hipoglicemia

Hipoglicemia
(Elinando F.)

A minha fome parece não ferver meus pensamentos, às vezes eles fluem numa direção só, sozinhos e angustiados pelo que se vê: A realidade de uma paisagem lenta, parecendo nunca mudar com o tempo. Em certos mundos, os sonhos são longes e eles correm rígidos, sem lembranças do dia anterior. Alguns lugares não são assim e parecem dádivas, a minha fome parece me dizer que isso é belo porque um dia alguém me falou: “Eis o motivo de nossa visita, beleza esta que nos enche de brilho os olhos, esse mundo não está tão perdido...”. Então assim eu busco essa substância que me resta, até minha fome dá uma pausa, eu sei que no estômago de alguns ela mata, e desaba num só pensamento, mas isso me acalma, eu vou comer pra ver se isso passa...

Wednesday, August 06, 2008

Os Pés do Recife

Os pés do Recife
(Elinando F.)

Aos pés do Recife o mundo é pequeno, eu nunca vi tanta gente engolida, eu nunca vi tanta paisagem suja e tão bonita, esculturas de lama, pobreza crescente e uma riqueza que dá nojo. Escoram do nosso lado para pedir, fingem-se de loucos, as almas sebosas sempre estão por aí e os são ladrões humilhados diante do povo: Retrato poético da vergonha de não poder sonhar em ter o mínimo. As prisões dos lares, a violência dos doidos, a solidão dos andarilhos e o passeio suspenso pelas pontes. Recife me traz saudades, é um sonho, é o reflexo do rio Capibaribe em minha alma, lembrança de minha Santa Cruz, cidade próxima a nascente desse rio onde a suas águas começam ser poluídas. Pernambuco é uma prisão, é um estudo de uma história perdida, entoada pela voz da canção do cordel que eu nunca quis ler nas esquinas, é uma cultura em ebulição, é nossa última esperança a ser cumprida, o inferno começa aqui, e o fim do mundo virá com a explosão desse vulcão inativo a jorrar o nosso desespero como lama fedida. Eu saí daqui no ponto, e parece que voltando no meio, sonho em algum dia ver Recife como antes, aquela cidade em que eu pensava ser uma capital e agora me parece ser um interior melancolicamente desenvolvido.

Tuesday, August 05, 2008

Astigmatismo

Astigmatismo
(Elinando F.)

A perda dos meus óculos é constante, dado o Sol que me há rachar os olhos amanhã e o tédio que não terá local pra se esconder. Eu quero meus óculos de volta, eu desejo ter um dia menos escuro e ver o céu mais limpo, eu prometo que na próxima vez prestarei mais atenção ao guardá-lo, pois sempre durante a noite, necessitando de um pouco da visão, abandono-o porque tenho na sombra meu objeto de direção. Eu preciso dos meus óculos, eu nunca imaginei que sem graus, eu poderia ver o mundo de forma tão nítida, a vida é mais linda sem essas cores, tonalidades de uma luz que me causa agressão!